segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Hitler



Tenho andado a ler esta obra nos últimos tempos. Devagarinho. Um trabalho extraordinário de Ian Kershaw, com quase 900 páginas (e com letras piquininas).

Vou fazer uma série de posts sobre este tema na tentativa de reunir a informação mais relevante mas de uma forma quase avulsa e sem preocupação de qualquer rigor. Para isso, leia-se o livro: é melhor.

Servirá para o interesse generalizado e, já agora, para me lembrar dos pontos mais importantes ou interessantes.

Obra esta que vem no seguimento de dois ou três volumes de Kershaw, que, pasme-se, condensou-os nas ditas quase 900 páginas, retirando dos volumes originais algumas referências a outras obras e outros, segundo percebi e segundo o autor explica no início deste Hitler. Ou seja, esta obra quase que é uma compilação. Extraordinário.

Vamos começar:


- Alois Hitler e Klara Hitler eram os pais de Adolf. Ao todo, tiveram seis filhos. Adolf era um deles. A maioria deles morreu, ou por doença ou porque... sim. Só um ou dois sobreviveu a par de Hitler, e se me recordo bem, um deles sobreviveu ainda depois da pressuposta morte de Hitler.

- A família de Hitler não era pobre. Também não eram os maiores ricalhaços de Linz, a terriola austríaca onde viviam e onde Hitler nasceu. Mas viviam bem, por via de Alois ter subido a pulso na vida. Era um zé-ninguém, mas com esforço chegou a um posto considerável na função pública (a fazer o quê, desconheço). Nesse sentido, Alois queria um caminho semelhante para Hitler. A verdade é que este não gostava nada dos estudos. Era desagarrado e estava-se marimbando para os estudos. Não tinha grandes objectivos. Fica a ideia de que se Hitler tem nascido no século XXI, seria certamente agarrado ao PC dia e noite, basicamente. O objectivo de vida de Hitler, ou de carreira, era a arte, tão-somente. Indolência era a palavra de ordem para Hitler. E assim foi até por volta dos seus trinta anos de idade, quando começa a discursar nas cervejarias de Munique. Mas adiante.

- Hitler era algo distante e alheado. Consta que Klara, sua mãe, terá sido a única mulher que verdadeiramente amou em vida. O seu pai, Alois, de vez em quando dava-lhe umas galhetas, mas nada do outro mundo... Podemos afirmar, por isso, que Hitler até teve uma infância normal, com tudo o que à época poder-lhe-ia ser oferecido.

- Ali na adolescência, e enquanto Klara vai tratando dos seus filhos a quinar (à excepção, como tinha dito, de um ou dois, e Adolf também), Hitler mais o seu único amigo Kubizek (amigo da escola, e sempre submisso a Hitler. Hitler falava, e o amigo, consentia e calava. Hitler era claramente o líder deste dueto) lá se piraram para Viena. A capital. Linz, como é óbvio, não lhe enchia as medidas - compreende-se. Em Viena, a situação não é a melhor. Existe bastante pobreza (estamos agora por volta do ano de 1910), as ruas são porcas e enfim, não é a capital mais agradável do mundo. Mas é aqui, em Viena, que Hitler começa a ir à ópera e a ler muitos jornais e revistas. Lê muito, de facto. Isto tudo com o income de sua mãe. Não era muito. Mas ia dando para alugar uma casa em Viena mais o seu amigo Kubizek. Mas ao cabo de dois anos o dinheiro iria terminar. Voltando às leituras, à época, existiam ilustrações e revistas de cariz anti-semita. Contudo, não lhe é conhecido, ainda, qualquer faceta ou referências anti-semitas (se não me engano, este seu amigo Kubizek é ainda vivo após 1945, pelo que pôde ser entrevistado para o efeito, etc.) O pai de Hitler, Alois, entretanto morre.

- Quando o pingo de Hitler termina, e já depois de afastado de Kubizek, Hitler entra na vagabundagem. Não tem dinheiro, não tem formação académica, nada. Nada de nada. Hitler foi para Viena também com o intuito de poder entrar no Conservatório. Mas como os seus desenhos eram ranhosos, não entrou. Nem à primeira, nem à segunda, no ano seguinte. Ainda por cima, o amigo submisso, Kubizek, se não me engano, entrou! Coitado do Adolf. Mas dizia: vagabundo. É isso mesmo, Hitler chegou a ser um vagabundo, com a barba por fazer, com roupas horrendas e mal cheiroso. Já não me recordo durante quanto tempo andou Hitler a vadiar mas possivelmente um ano, dois anos ou mesmo três anos. Só indo ver ao livro agora. Mas não é importante. O importante é que aquando destas lides, um dos amigos de Hitler da vida de vagabundo começa a abrir uma espécie de negócio. Vender uns postais e tal, ilustrados. Hitler desenha-os (copiando de quadros ou assim) e o outro sócio vendia. Começam a fazer uns cobres aí. (Mais um tipo que mais tarde serve como referência para contar e melhor explicar a vida de Hitler). Mas até neste negócio Hitler era preguiçoso, trabalhando só o suficiente para sobreviver. No entretanto, não prescinde da leitura de jornais e revistas, material indispensável para si. Material anti-semita, à época, recordo, não era propriamente raro. Vendiam-se nas bancas...

- Há pouco dizia eu que andávamos por volta de 1910. Pois agora andamos por volta de 1914 e a verdade é que estala a Primeira Grande Guerra. Já não sei bem mas Hitler voluntaria-se, ou uma coisa assim qualquer. Sinceramente já não sei. O que sei é que Hitler até combate nessa guerra, ao serviço da Alemanha. Combateu pouco mas até esteve uma ou outra vez na linha da frente, mas nada de especial. O grosso da guerra Hitler andou a fazer trabalho menor, andando de bicicleta a distribuir mensagens para a frente de combate e coisas assim. Mas até foi distinguido por esta acção. Para aí com uma Cruz de Ferro ou assim. Hitler pega aliás nalgum material da Primeira Guerra (como a Cruz de Ferro) e usa-a depois como símbolo dos militares nazis (se não me engano, claro). Hitler ter-se tornado militar foi muito bom para ele. Deu-lhe algum objectivo na vida, ainda que não deixasse de ser um frete para ele, e, mais importante, passou a ter algum income: recorde-se que não passava de um vagabundo. A guerra termina em 1918. Hitler fica no exército mais um ano ou dois. E para ele, quanto mais tempo melhor: recebia pingo. Se ele sai do exército ia fazer o quê? Estudos zero, habilitações zero.

- Uns anitos depois, possivelmente de 1920 em diante (e Hitler aqui tem já trinta e picos) Hitler começa a fazer uns discursos. Estamos em Munique. Hitler não mais queria sair de lá - era em muito superior a Viena. Hitler entra num partido recém-formado: o NSDAP. O Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Anton Drexler é um nome aqui importante. Um dos fundadores do partido nacional-socialista se não estou assim muito afastado da realidade. Nesta altura, no pós-guerra (e mesmo antes) o Movimento Völkisch era super comum. Movimento popular que apelava à nação, à raça, e por aí adiante. Ou seja, de 1920 em diante, fica a ideia de que com ou sem Hitler, o ambiente era de facto pesado (Alemanha tinha uma dívida astronómica a pagar aos países vencedores) sendo o pão nosso de cada dia haver incitamentos anti-semitas. Tão comum à época como hoje é comum... andar no facebook; quase, segundo percebi. Hitler começa a fazer os seus primeiros discursos, em cervejarias de Munique, e começa a ter cada vez mais público, cada vez mais aplausos, e cada vez o Partido tem mais militantes. Por isso, muito deve o Partido, ao início, a acção de Hitler. Recorrendo sempre (e agora sim, pelas primeiras vezes se lhe reconhece o anti-semitismo, o que é engraçado, dado que quando era vagabundo lidava recorrentemente com judeus, sendo inclusive o seu parceiro de negócio judeu. Nessa altura, não lhe é conhecida nenhuma referência negativa aos judeus. Nenhuma abonatória, mas também nenhuma propriamente negativa) a um palavreado exacerbado, apelo à raça, e apelo às questões delicadas que a Alemanha ultrapassava. Depois vem a inflação, os preços sobem como o caraças, e a pobreza na Alemanha começa a ser cada vez mais uma realidade. Basicamente, os discursos de Hitler baseavam-se no alimentar da cólera e dos ressentimentos que o povo alemão tinha. Hitler dava lenha e mais lenha, e a malta ia queimando essa lenha. Alvíssaras para Hitler, que, usando sempre a mesma fórmula, foi cativando a malta. Pela primeira vez Hitler descobre a sua vocação e algo em que é mesmo bom: discursar. Inclusive foi-lhe proposto a liderança do Partido, ao que este numa primeira fase recusou por isso significar ter que tomar outras diligências que não o discursar puro e duro.

- Hitler está mais ou menos com trinta anos de idade e ainda não cheguei à década de 30. Vou mais ou menos aqui.

Voltarei a este assunto novamente. Até lá.

1 comentário:

Carlota Siéva disse...

A trabalheira que deves ter tido!

Bem, tudo isto é novidade para mim, à exceção do antissemitismo (este acordo ortográfico...) anteceder a Hitler. Ainda assim, continuo sem compreender a sua mente. De qualquer modo, parece-me que se não tivesse sido ele, teria sido outro.