terça-feira, 6 de abril de 2010

Mestre

Um belo dia, estavam à mesa a conversar os praticantes de uma arte marcial. Conversavam um pouco sobre tudo; sobre a arte que praticavam, sobre a vida, sobre o mundo, sobre as suas inquietações e sobre o caminho que cada um percorre na vida e no seu interior.

De repente, o Mestre passa pela mesa e faz saber a todos que:

-When you have some time, I need to talk with you ok? When you can, I need to talk with you! Don't go away.

Os praticantes acenaram positivamente, esperando o regresso do Mestre e o assunto que quereria trazer à mesa. E foi-se.

Volvidos dez minutos, o Mestre senta-se à mesa, casualmente, e mistura-se na conversa com os praticantes.

Todos conversam, conversam e conversam. Praticantes e Mestre. E conversam, e o tempo a passar sem ninguém se dar conta. Conversam um pouco sobre tudo; sobre a arte que praticam, sobre a vida, sobre o mundo, sobre as suas inquietações e sobre o caminho que cada um percorre na vida e no seu interior.

Volta e meia, depois de muito se conversar, o Manuel lembra-se e pergunta ao Mestre:

-Sensei, by the way, what did you want to talk with us? You said you needed to talk with us.

O Mestre responde genuina e descontraidamente, com um sorriso na cara e umas gargalhadas pelo meio:

-But we are talking now!

Respondido.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ossos do ofício



Por motivos unicamente "profissionais" - leia-se, dar aula de aikido - não vou poder assistir ao que será porventura um dos mais emocionantes encontros da época. (Isto é, se alguém se dignar a aparecer no treino. Hehe.)

A responsabilidade



No futebol quando uma equipa não obtém resultados a responsabilidade é do a) treinador, b) direcção ou c) jogadores?

A responsabilidade é, em última análise, de toda a estrutura. A começar pela direcção na figura do senhor Presidente, passando pela equipa técnica e acabando no fraco desempenho ou baixo rendimento dos atletas.

No futebol é um pouco mais complexo; ao fim e ao cabo existem os adversários, contratações falhadas, exposição mediática, enfim, um sem-número de factores.

De qualquer modo, o dedo é comummente apontado a a), ao treinador. É ele quem vai ao leme quer queiramos ou não, e é ele quem dirige o navio, e é quem tem de fazer omeletas com os ovos que tem à disposição. É um gestor de recursos humanos, um moldador e manipulador das ânsias e motivações dos seus atletas.

Reconheço que no aikido é um pouco mais fácil.

1) Não é desporto nem há competição, o que significa que não há adversários nem se irá ganhar ou perder, 2) não se contrata, as pessoas vão treinar porque querem e pagam para tal, 3) não existe qualquer tipo de exposição mediática, 4) etc.

É verdade que estou a comparar alhos com bugalhos; o futebol numa perspectiva mais macro e o aikido em perspectiva micro. Mas no limite, há um ponto em comum nestas duas actividades: o facto de a responsabilidade ser sempre do homem que vai ao leme.

No aikido se um aluno não atinge uma performance esperada pelo professor, isso é responsabilidade do professor.

Justamente por isso, um aluno só é proposto a exame pelo seu professor caso este considere que ele está apto e tem todas as competências necessárias para dar o passo em frente e subir um degrau.

Se o aluno porventura falha esse passo, quem fica mal visto é o seu professor.

E é por isso mesmo que nunca é um aluno a propor-se a exame mas sim o seu professor que toma essa deliberação.

Este tipo de condução e funcionamento só vem justamente reforçar o carácter de responsabilidade de um professor de aikido e estes papéis não podem nem devem inverter-se. O ónus deve estar sempre no professor relativamente a estas matérias.

E por isso mesmo não é fácil ser professor de aikido. Ainda para mais na sociedade de hoje em dia; uma sociedade com quebra de valores e em regime McDonald's onde a regra é mascar pastilha elástica e os objectivos estão cumpridos fácil e rapidamente - licenciaturas a três anos, um exemplo disso hoje em dia.

Um professor tem que lidar, tal como um treinador de uma equipa profissional de futebol, com as ânsias, os objectivos internos de cada um, e, ao mesmo tempo, saber conduzir a nau a bom porto. Ser comandante e voz de comando não é fácil, mas dá seguramente prazer, calo, experiência, também dissabores - porque não - mas o saldo é seguramente positivo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O ouvido até sorri só de ouvir

(O) Incrível



Hulk.

Um golo fantástico e duas assistências.

Só vem realçar ainda mais a nódoa que foi ter ficado de fora 17 jogos quando afinal deveriam ter sido só 3.

sábado, 27 de março de 2010

O sotaque




Nasci em Lisboa, em S. Sebastião da Pedreira, mau grado no meu B.I. dizer que nasci na Parede, em Cascais. É uma pecha na minha identidade oficial que abomino e abominarei para todo o sempre.

Bom, mas isto vem a propósito do quê? A propósito da pronunciação de palavras como coelho, fecha, espelho, veja e por aí fora.

É que Passos Coelho foi eleito novo líder do PPD/PSD e, ao ouvir as palavras de felicitação do nosso Primeiro-Ministro a Passos Coelho, lá veio ao de cima como tantas vezes ouço a pronúncia /coêlho/ de coelho.

Não é de agora que ando a batalhar com pessoas próximas e amigos de que /coêlho/, /fécha/ ou /fêcha/, /espêlho/ é coisa do interior, e de gente do campo, ou pelo menos, longe das grandes periferias e da cidade. Isto é, amigos nascidos na Grande Lisboa e que pronunciam /coêlho/.

Na verdade José Sócrates é natural de Alijó, segundo a Wikipédia, e Passos Coelho também viveu no Distrito de Vila Real; Passos Coelho que também pronuncia /coêlho/.

Enfim, decidi ir investigar no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e fez-se luz.

Afinal de contas não são as gentes que pronunciam /coêlho/ e afins que são do interior ou do campo.

Eu que pronuncio /coâlho/ ou /coeilho/ é que sou de Lisboa!

Eu que com desprimor apontava o dedo aos outros afirmando que eles falavam mal ou com sotaque, nunca me lembrei de apontar o dedo a mim próprio, concluindo que também eu falo com sotaque, mas à la alfacinha. [Onde eu fico sem entender como é que pessoas nascidas e que vivem na Grande Lisboa pronunciam /coêlho/].

Faço então hoje aqui o meu mea culpa.

Afinal, eu também falo com sotaque.

Nota: Ainda que Carlos Rocha, do Ciberdúvidas, chame ao sotaque de Lisboa a «pronúncia-padrão do português europeu».

quarta-feira, 24 de março de 2010

Repeat mode: ON

Não consigo tirar isto do modo repeat. Esforço-me, mas chega ao fim, e tenho que ouvir de novo.

Help!

quarta-feira, 17 de março de 2010

A doença da F1

[Na foto: Mansell dando uma boleia a Senna.]



A Fórmula 1 está doente. Há muitos anos que está doente. Só resta saber se é uma doença terminal ou não.



Eu sou do tempo do Nigel Mansell (o meu ídolo do desporto automóvel, devo dizer). Do Alain Prost. Do Schumacher da Benetton. Do Gerhard Berger e do Jean Alesi da Ferrari. E claro, do Ayrton Senna.



À época a F1 era ligeiramente mais competitiva do que era hoje. (O itálico aqui pretende denotar sarcasmo, para os mais distraídos).



Mudança de regras à parte, que agora muda todos os anos e nem a par estou pelo simples desinteresse que nutro em assistir a uma corrida destas do início ao fim - sei o básico, como por exemplo agora não haver reabastecimentos (como em tempos idos, aliás) - de tão entediante que é ficar cerca de hora e meia a observar 20 e poucos carros, uns atrás dos outros, sem qualquer tipo de coisas a acontecer. É um tédio. E tem-no sido há mais de uma década.



Nada acontece, tirando amiúde as lutas e as jogadas tácticas nas boxes, factor sempre emocionante numa corrida onde a velocidade, as ultrapassagens (acima de tudo) e a emoção deveriam ser o factor primordial deste espectáculo, agora doente.



É aqui que entra o MotoGP. É que se Schumacher bateu todos os recordes e mais alguns, sendo um regular vencedor, também Rossi o fez nas motas. A diferença está que nos títulos de Schumacher apanhámos seca a ver as corridas, ao passo que nos de Rossi, há show do início ao fim (quem não se lembra das lutas pelo primeiro lugar, nas últimas curvas da corrida, entre Rossi e Gibernau?).



No MotoGP, mesmo sendo sempre o mesmo a ganhar, tal como chegou a acontecer na F1 (agora já não, mas nem por isso é emocionante ver uma corrida de F1), até o tipo que vai na quinta posição pode sair vencedor, enquanto que na F1, chega a acontecer o quarto, o quinto e por aí fora classificados, levarem uma ou mais voltas de avanço, como já vi acontecer.



Isto numa prova de sprint, que mais parece que estão em endurance.



F1 está doente, para não dizer que morreu. É o lamento de um genuíno fã de F1, mas não desta F1 pachorrenta, entediante, que anda à deriva há já demasiado tempo.

segunda-feira, 8 de março de 2010

'Quase' melhor que o original!






A roçar a perfeição.

sábado, 6 de março de 2010

A problemática dos centrais





Jogo PES há muitos anos. Não há muitos, vá, mas há alguns, seguramente.

Contudo, do alto da minha ignorância, reivindicava para mim algo que, neste jogo, aquando da marcação - por exemplo - de pontapés de canto, não sucedia. E era o quê? Os centrais da minha equipa nunca estarem lá. Passava-me com isso. Mas, finalmente, e um pouco ao acaso, lá descobri como enviar para a frente os centrais na marcação de bolas paradas. É algo que, incrivelmente, não vem por defeito no jogo.


E que diferença...


Nas minhas jogatanas dominicais passei a vencer ao meu adversário mais directo, o F., com margem de muitos golos. Aliás, no domingo passado, num livre marcado no meio do rua, aparece Puyol, na área, a finalizar. E que golo.


E isto porquê? Porque descobri como enviar os centrais lá para a frente. Aleluia... uma coisa tão banal do futebol moderno, mas que não acontecia, na prática, nas minhas equipas do PES.

F., põe-te a pau. Vai ser difícil agora sair do fosso de resultados em que te encontras. Lamento.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Os KO's de Paulo Rangel

Chegou a ser, a espaços, confrangedor assistir à impotência retórica de Paulo Rangel quando confrontado com os seus competidores directos à liderança do PPD/PSD. Primeiro com Passos Coelho, e depois com Aguiar-Branco. São "só" debates televisivos, e, nesse sentido, não descredibiliza nem coloca em causa, no meu entender, as capacidades intelectuais do (ex-?)deputado europeu. Contudo, fica a imagem. E essa, vale votos. Muitos votos. E apoios também. Dentro do partido; fora do partido. Vale tudo, vá. A imagem, hoje, vale tudo.

O resultado final é o que se vê na imagem que se segue.


Imagem surripiada daqui.

Já estou é com água na boca para assistir ao debate entre a mudança e a união mais logo à noite.

Afinal parece que não foi hoje à noite. Não sei onde raio li tal informação. Fica o equívoco reparado, e água na boca a crescer sem parar.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Temos aqui um caso!




Rui Santos no seu último Tempo Extra sugere que Rui Moreira, do Trio D'Ataque, se está a posicionar tendo em vista uma possível candidatura à presidência do FC do Porto, numa situação pós-Pinto da Costa.


Arrojado, arrojado.


De qualquer modo, temos aqui um caso!


Veremos...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Palavras para quê?

Kumi Jo. Significa bastão contra bastão. A execução dos 31 movimentos de Jo, normalmente a solo, aqui em kumijo, é o pretexto para este pequeno vídeo, onde o cenário deslumbrante fala por si. É o senhor de escuro, à direita, que executa os 31 movimentos. O da esquerda limita-se a defender/atacar.

Enjoy!



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Essa é que é essa!



É mais fácil sairmos lesionados de uma partida de futebol com os amigos do que treinar aikido.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Prolongamento - Madeira

Ok, a ver se não me esqueço de nenhum:

Ao sábado à noite, na RTP N, Zona Mista com João Gobern e Bruno Prata.

Domingo à noite, na SIC Notícias, Tempo Extra com Rui Santos.

Segunda à noite, na SIC Notícias, O Dia Seguinte com Guilherme Aguiar, Dias Ferreira e Sílvio Cervan.

Em simultâneo com O Dia Seguinte, na TVI 24, Prolongamento com Eduardo Barroso, Fernando Seara e Pôncio Monteiro.

Terça à noite, na RTP N, Trio D'Ataque com Rui Oliveira e Costa, António-Pedro Vasconcelos e Rui Moreira.

Quarta é dia de descanso. Uma pena, uma pena.

Quinta à noite, na RTP N, Pontapé de Saída com Luís Freitas Lobo e João Vieira Pinto.

Sexta à noite, talvez num outro campeonato, na TVI 24, Mais Futebol com vários comentadores residentes, sendo o mais conhecido no mundo do futebol o Toni.

Fica a faltar talvez o Lugar Cativo com Fernando Correia - mas este é seguramente de outro campeonato - e um programa qualquer, na RTP N, só com o João V. Pinto, julgo que ao fim-de-semana.

Mas isto não interessa nada... Todos nós já conhecemos os programas supracitados. Correcto? Pois é.

Mas há um que eu acho que vocês não conhecem! ah, ah!

Seu nome é Prolongamento, e é transmitido somente pela RTP Madeira. Mas, fear not. Pode ser integralmente visto aqui.

Posso dizer que tenho devorado completamente este programa, cujo nome a TVI 24 fez o favor de surripiar para o seu show concorrente ao Dia Seguinte. Aliás, não foi só o nome que surripiou. Fica a ideia que algo mais foi surripiado... mas também não interessa nada!

O Prolongamento, da RTP Madeira, tem como painel de comentadores um ex-árbitro de futebol, um sócio do Marítimo e outro do Nacional da Madeira, e ainda um jornalista da Antena 1. Regra geral, é este o painel. Já lá também estiveram, como convidados, o Danny do Zenit, Manuel Machado ou o Rui Alves, do Nacional.

Tirando o jornalista da Antena 1, Vítor Martins, que é o único ali que fala, como dizer, sustentado em argumentos que por acaso até têm alguma construção lógica, assentes sempre em conhecimento de causa, já o resto do painel é bem mais divertido de ouvir. Vítor Martins, por falar demasiado bem e assertivamente, acontece que é o que tem menos interesse e piada em ouvir.

Quanto ao resto dos comentadores é absolutamente genial ouvi-los a debater sobre futebol, nomeadamente o senhor Emanuel Câmara, ex-árbitro e recente militante do PS. Emanuel Câmara até tem um site onde nos ensina a votar, só assim para o caso de não sabermos como tal coisa se faz.


Mas eu calo-me agora, e deixo ao vosso critério as reflexões sobre o Prolongamento.


Não percam o Prolongamento que eu... também não!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Se, se, se...

A prova de que a discussão do futebol em Portugal - ok, e no mundo - está nivelada por baixo é o facto de se dar enfoque em demasia ao golo do Sporting de Braga ante o Marítimo, precedido por um lançamento de linha lateral não assinalado pela equipa de arbitragem.

Domingos tem razão: antes do golo, mais futebol houve. Marítimo teve oportunidade de aliviar a bola da área. Estava-se a jogar futebol. Mas que raio tem a ver o facto de a 'fora' ter sido marcada ou não?

Só dou a mão à palmatória quando o lateral do Marítimo se desconcentra e abranda o seu ritmo, permitindo assim o avanço do bracarense Filipe Oliveira e consequente centro para a área. Mas repito: depois disso, tudo prosseguiu no seu percurso normal. Marítimo não aliviou a bola, Braga concretiza. Lamento.

Não estou a branquear o erro de arbitragem. Estou a condenar esta fobia e visão em túnel relativamente a um erro que jamais em tempo algum está ligado directamente ao golo.

"Ah e tal se tivessem marcado a 'fora' já não era golo". Então e se tivessem marcado a 'fora', Filipe Oliveira faz o lançamento para a área e um ponta-de-lança enfia a bola na baliza do Marítimo? Mas porque é que o primeiro se é mais válido que o segundo?

Já agora, poder-se-ia ir um pouco mais atrás no lance e detectar quaisquer outras ilegalidades que assim contribuiriam para um não-golo do Braga. Quer dizer, ridículo, no mínimo.

Anyway, este lance de futebol, é a prova cabal de que a discussão do futebol começa a enjoar e a ficar podre. Haja paciência.

Olha, se a minha avó não tivesse morrido ainda hoje era viva! Diz o povo e bem.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

PPD/PSD

Ora deixa cá ber.

Se atentarmos à badalada premissa de que "os políticos são todos iguais!", gostava eu que desta feita a velha guarda do PPD/PSD (Paulo Rangel velha guarda? Erm...) não lixasse o puto Passos Coelho.

Se atentarmos à premissa, acharia interessante dar oportunidade ao puto mostrar o que vale.

Isto só em nome de uma lufada de ar fresco, claro está.

Afinal de contas "os políticos são todos iguais!".

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sempai-Kohai

No aikido existem algumas dualidades de conceitos. Alguns duos. Os mais evidentes são o irimi versus tenkan. O céu versus a terra (tenchi). O omote versus o ura. O tori versus o uke. No fundo, a presença deste Yin e Yang, acaba por ser constante, ainda que por vezes passe despercebida. Este é claro, o grosso modo. Os extremos! Mas nem só de extremidade o aikido é feito, mas, sem dúvida que no plano da aprendizagem, das bases e da compreensão inicial do que raio é que vem a ser isso do aikido, extremar estes conceitos e diferenciar o preto do branco ajuda a entender melhor o cenário global, ainda que seja somente numa primeira fase (primeiros 20 anos? Hehe).

Mas há pelo menos mais um duo. O de sempai versus kohai. Simplificadamente sempai significa o aluno sénior, como chama o sensei Stefan Stenudd no seu glossário de aikido. Já kohai, por oposição, significa o aluno júnior. É isso.

Tal como na sociedade e na vida de todos nós,(surpresa das surpresas!) existe no aikido algo chamado de hierarquia. Esta hierarquia passa numa primeira fase pelo evidente estatuto exibido por um qualquer cinturão que um indivíduo tenha (ainda que existam escolas que estão à margem desta matéria, do uso de cintos ou graduações definidas).

Contudo, e cinturões à parte existe, se podemos chamar assim, uma sub-hierarquia que é precisamente esta do sempai-kohai. Ao contrário dos cintos, esta não é visível, não está escrita nas testas de ninguém e nem se pode sequer adivinhar. Não: esta sente-se, vive-se, pratica-se, executa-se e exerce-se. Sem pudor e com muito coração.

Tentando exemplificar: tirando o meu sensei, que a par de ser meu sensei é meu sempai também, é meu sénior (não de idade, não de cinto (!) mas de quilometragem aikidoca), há mais dois grandes sempai que tive. Infelizmente, já não mais praticam, pelas mais diversas razões, mas foi com eles que durante bons anos pude aprender, compreender e crescer de forma mais vigorosa no aikido e na vida. A Ana e o David. Senhores de uma técnica invejável e senhores de uma alegria a praticar em cima do tapete também ela invejável. Para além destes meus sempai, mais marcantes, por assim dizer, havia um outro. O Miguel. O Miguel volta e meia também deixou de praticar, contudo, para aí há um ano, dois, voltou ao dojo. Ele, já chefe de família e pai de filhos (e eu quase com idade para ser filho dele) surge subitamente num treino. Sorrio de uma ponta à outra: diabos, é um sempai meu, daqueles da velha guarda! Daqueles que tem tanto para me ensinar, que conhece caminhos ocultos ou ainda não descobertos por mim e que anseio por dominar mais dia menos dia. Nesse dia, em que ele aparece no dojo, já eu não era mais aquele puto charila de que ele se lembrava. Já também não era mais um kyu. Agora, eu já era 1º dan. O primeiro cinturão negro. Ele, 1º kyu. Cinto castanho.

Sabendo que tradicionalmente nos cerimoniais de começo e fim de aula os alunos sentam-se da esquerda para a direita, por ordem crescente de graduações, eu, nesse dia, não consegui ser o tipo mais à direita. Não não não! Durante anos e anos sempre eu tive à esquerda do Miguel. Eu hoje sou mais graduado, em cinto, que o Miguel, mas certamente não deixei de ser kohai dele, seu júnior. E, por esse facto, o meu lado direito será sempre dele, e dos meus sempai.

Enfim, a relação entre sempai e kohai é essa mesmo. No plano do visível uma coisa tão simples como ceder o lugar de maior destaque do dojo a quem de direito o merece, já no plano do emocional, saber que é com eles, com os sempai, mostrando sempre respeito e acima de tudo gratidão por serem os nossos "padrinhos" do aikido, que podemos ansiar aprender mais e mais e mais.

Hoje, acontece um pouco mais ao contrário. Pessoas que têm idade para ser às vezes meus avós, são minhas kohai. Eu, no melhor que consigo oferecer e dar de mim, tento ser sempre o melhor sempai possível para eles, kohai. O aikido é feito justamente desta entreajuda. Mas sem sobrancerias, sem altivez ou desprezo pelos hierarquicamente abaixo. Sem, também, submissões tolas para os hierarquicamente acima.

Os kohai são importantíssimos. Serão os futuros sempais dos kohai de amanhã. Mas atenção que sem esse guia, acima de nós, mais sapiente, mais experiente - o sempai - o nosso caminho no aikido fica mais atribulado. O técnico, o mental e até o espiritual.

Bem haja à dualidade sempai-kohai e àqueles que nela humanamente fazem parte desta.








Líder

Cito o site do Luís Freitas Lobo para mostrar aqui um vídeo do treinador do Barcelona, Guardiola, onde temos a oportunidade de saber o que diz ele aos seus jogadores em situações delicadas, como era neste caso, num 0-0 após os 90 minutos contra o Shakhtar, havendo ainda um prolongamento por disputar.